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Trinta e um

 As coisas que aprendi até aqui foram: mesmo se você fugir, mesmo se você voar por 10 horas e atravessar o oceano e começar uma vida nova, as dores antigas ainda vão doer. Você tenta deixar pra trás, todas os rostos das pessoas que te machucaram, mas ainda dói, porque não tem explicação. Era maldade por maldade. Não tem uma razão por trás.  Não tem nada que explique homens de mais de 20 anos de idade quererem transar com uma adolescente de 14,15,16 anos... E por mais que eu tenha culpado a mim mesma por todos esses anos, com 31 eu sou capaz de entender que o crime não era meu, mas a dor é. Essa me pertence e aparentemente vai morrer comigo. Mesmo que a minha vida nova seja mais leve, mesmo que eu tenha mais poder de escolha, mesmo que meu emprego não seja no shopping, eu ainda choro escandalosamente sozinha no meu quarto no dia que completo 31 anos. Porque continua doendo. Nem toda terapia do mundo apaga o que eu vivi.  Tem um buraco gigante dentro de mim, porque a minha ...

Me escreverei cartas de amor.

Entendi que preciso me libertar da necessidade de estar sempre ligada a alguém. Sempre em contato com alguém. Triste hábito que a ansiedade me trouxe desde muito cedo. A ideia de que só estaria segura com outra pessoa me cuidando, falando comigo, fazendo com que eu mantivesse contato com algo externo a mim, uma espécie de âncora para o caso de eu me perder dentro de mim. Que traz justamente esse efeito: âncora, peso. Ninguém deve ocupar esse lugar, porque ele não deve existir. Logo, ele jamais funciona. Ao longo dos anos, muitas pessoas que eu amei me deixaram aos pedaços, em qualquer tipo de relação — principalmente de amizade. Eu queria estar sempre ao lado, para tudo, sendo ingênua, já que isso não é possível. Em nenhuma relação isso existe. Aliás, existe: a relação consigo mesmo. Esta precisa ser sempre nutrida e bem cuidada. Estarei comigo até o fim, minha única obrigação é comigo. Eu cresci achando que a forma mais bonita de amar era amar alguém incondicionalmente, com todas as s...

Noutro plano te devoraria tal caetano a Leornado Dicaprio...

Sabe, é uma sensação calma, segura e, ao mesmo tempo, fantasiosa. É mesmo muita pretensão imaginar que, em algum momento, ela me deixaria entrar. Embora a tal sensação seja tão clara. Eu a conheço. É como se eu quisesse adentrá-la e abraçar todos os mistérios que ela guarda de si e esconde dos outros. Não mais de mim. Dizer que eu sei, que eu entendo, que sinto, que às vezes sinto igual. Como de costume, os detalhes me devoram. Os olhos, sempre. Agora também o sorriso. O contorno que se forma quando o rosto sorri. As dobras dos dedos. As costas… ah, as costas… Não me espanta em nada o pescoço ser proibido, é muito perto. É quase dentro. Só os tolos se deixam levar pela excitação e dão de bandeja o próprio pescoço aos amores que facilmente podem se tornar caçadores. Eu a vejo e parece tão fácil. Como alguém em sã consciência pode olhar para ela e não ver a mesma coisa? Ali, esperando por alguém. Alguém inteiro, com seus mistérios e sua despretensão. Alguém que a tire de onde está. Algué...

2015

Ônibus lotado. Endereço errado. Um mês e nada da correspondência chegar. Fala e raciocínio fora de sincronia. Calor. Esmola. Gastar dinheiro com livros nos dias de hoje. Calcular o tempo que eu desperdiço esperando ônibus e esperando ser atendida pela moça do banco. Ler mais 5 páginas. Ajeitar a bolsa pesada no ombro. Colocar e tirar os óculos. Correr para atravessar a avenida. Pedir aos céus para não perder o ônibus. Calcular quanto preciso juntar e em quanto tempo para fazer trezentas coisas. Subir 3 lances de escadas para beber água. Ir ao banheiro só para sentar e descansar as pernas. Pensar para escrever. Montar slide. Encontrar referências em todos os lugares. Arrepiar ao ouvir uma música pela primeira vez. Aprender. Entender a vibe de quem consegue dormir em ônibus/trem/metrô. Digitar tudo isso no celular. Cabeça cheia demais para desligar. Crer no sonho. Sozinha. Observar. Entender os caminhos e enxergar toda uma vida através de uma imagem: mulher magra, negra, 7 da manhã, lava...

Quantos anos de blog? E eu continuo querendo fugir. Quero me mudar de MIM !!!

Desde que parei de escrever, vivo transbordando. Logo eu, que sempre preferi ficar sozinha com os meus pensamentos, observando e descobrindo detalhes que as outras pessoas ignoram enquanto conversam sobre aquela viagem, aquela brisa, ou aquela pinga. Porque as minhas histórias desse tipo são poucas. Dá pra contar nos dedos. Cansou fácil. Conforme você cresce, fica mais difícil lidar com as consequências do que o corpo faz quando fica embriagado. Pelo menos com o meu, foi assim. Pra onde foram os humanos? Onde estão os humanos parecidos comigo, para eu me juntar? Ficou tão escasso o contato. Mesmo desempregada, mesmo os poucos amigos, também desempregados, fica cada dia mais complicado o simples evento de juntar uns amigos e ficar tagarelando. Mesmo com esse mundo enorme me envolvendo, ainda me sinto sozinha. Ando num estado que, olha… seja qual for o assunto, não demora, eu começo a chorar. A crise financeira, que hoje em dia não atinge mais apenas os bancários ou gente de muita grana,...

All I wanna say is that They don't really care about us .

Eles não se importam. Não importa o que você veste, nem os sapatos que usa. Não importa se você vende drogas ou não, se usa drogas ou não, se já fez um assalto ou não. Se tem mãe ou não. Nada importa, exceto o fato de estar aqui. Pior ainda, se você morar aqui. Pode estar apenas caminhando com o cachorro na coleira, sentindo o frescor da noite. Eles não vão se importar. Só importa o fato de você não ter outro lugar para estar quando eles chegam. Aqui, eles nos olham como se fôssemos ratos. Enquanto eles trabalham para a companhia de saneamento — água e esgoto. E o seu dever é manter o esgoto limpo. Sem ratos. Portanto, somos o estorvo. Se não existissem ratos, eles poderiam comer suas rosquinhas e fazer cara de mau por aí, nos postos de gasolina, caminhando, fazendo suas botas de couro rangirem, ordenando que o som dos carros seja abaixado. Tudo na área limpa da cidade. Na nata. Na superfície. Somos a Deep Web da vida real. Se nós, os ratos, não existíssemos, eles não precisariam vir a...
Tudo vai bem. Bem pelo avesso. Olho pra rua depois de vários dias sem sair de casa. Penso em todas as coisas, os problemas, as brigas, possíveis soluções… Passa das sete, horário de verão, acaba de escurecer. Caminho com as mãos nos bolsos, olhando as vitrines e fachadas de clínicas, imaginando os donos dos nomes esquisitos de médicos. Um cara aponta na esquina. Tenho quase certeza que vai me parar. Dinheiro. Claro. “Me dê qualquer quantia, pra comer alguma coisa.” As frases são parecidas. As possibilidades: inúmeras. O cara podia realmente comer. Ou comprar um baseado, uma pedra, ou uma pinga de bar, ou juntar grana pra voltar pra Bahia. Sim, um cara já me disse isso uma vez. Às vezes, eles me convencem da veracidade das histórias. Porque o dinheiro mesmo, conseguem sem esforços. Não sei dizer não. Isso acontece muito. Continuo andando, chutando pedras, desviando das obras das calçadas, das pessoas folgadas que acham que você é quem tem que desviar delas… De repente, reparo nas lojas ...

1852

Essas músicas que vocês cantam, essas músicas que vocês dançam e dizem sentir todo um universo nos ouvidos. Eu não tenho isso. Ouço, mas não sinto. Olho meus dedos através do sol, depois olho em volta, e eu não faço parte dos carros passando, nem das pessoas conversando, nem da fofoca das vizinhas, nem dos causos nos bares, nem dos sorrisos entre as bebidas, nem das transas promíscuas. De nada. No meu mundo, somente as letras dançam, embaralhadas na minha cabeça e balançando na minha visão turva enquanto eu tento transcrever o que… o que pede pra eu rasgar minha pele e fugir daqui, porque aqui não é meu lugar. Eu vivo todos esses dias tentando mascarar que aqui dentro está vazio. Eu limpo a casa, lavo as roupas, vou pro trabalho, luto pra falar ao telefone, pra ter como sobreviver, preparo o almoço, o jantar, a ração pro cachorro. E, quando eu me distraio com minha própria imagem no espelho, eu não sou nada. Eu procuro em livros, eu procuro nas histórias das vidas de outras pessoas, no...
Passos pesados ecoam sobre a poeira. Os pequenos bichos correm para se esconder. É como entrar numa casa abandonada, tomada pela natureza, pelo lodo, pelo escuro.  Ler tudo que ficou intacto aqui, sobras de todos aqueles anos, me faz sentir assim. É pesado. Escuro, acelerado. Sempre parecendo que eu não sobreviveria. Lembra quantas vezes eu falei em fugir? Nunca o fiz... Para você, que pode estar aqui pela primeira vez, não importa, mas se você é um peregrino dos bons pelas histórias de vidas alheias perdidas nessa enorme rede.. talvez importe. Eu fiquei, estou na mesma cidade, no mesmo apartamento, usando as mesmas roupas, com o mesmo nome. Lutei contra o que me habita, talvez seja vago dizer que o domino, mas posso afirmar que não me domina mais.  Cada noite, cada caminhada pelas noites escuras nesse bairro que nem deve existir no mapa, cada cigarro que ardeu a garganta e cada gole traiçoeiro, me recordo de tudo. Bem aqui. Neste mesmo lugar, neste pequeno cor...
É muito difícil continuar escrevendo nos dias de hoje, tanto pela falta de fé das pessoas nos escritores quando pelo meu medo de estar submersa pela escuridão desse pântano de sangue outra vez. Não consigo mais escrever. Não consigo escrever sem me arrancar pedaços, sem ficar espalhada pelos cantos, sem estar em frangalhos, migalhas. Me desmontar... nem que seja pra remontar tudo depois. Nunca imaginei que seria assim. A vida eu até tinha uma noção de que, de um jeito ou de outro, seguiria. Aos trancos; mas isso? Assim? Sem poder dizer nada? Sem poder cuspir quando sinto gosto ruim, sem poder vomitar quando o conteúdo ingerido não se adapta ao meu organismo? Que estranho. Não me sinto. Escrevo, preencho a linha inteira, e deixo só metade. Ou nem isso. Como na linha acima, tinha mais história ali, apertei várias vezes a tecla de apagar. Só "não me sinto" deve bastar. Quando era o começo, quando eu tinha muito menos experiência pra me sustentar, sobreviver, o desespero me ...
O mundo cai. Sempre que eu fecho meus olhos. Mas é segredo... Ninguém ouve, ninguém caminha entre os escombros comigo. É solitário demais aqui. Dentro da minha cabeça...
Novamente aqui, perante ao dilema de não mais saber lidar tão bem com as teclas e letras e acentos e pontos. De novo o gosto amargo de ferrugem, de sangue, na boca. De novo o gosto azedo do meu sulco gástrico de toda a vida, escalando as paredes da minha garganta com uma destreza tremenda. Entretanto meus dentes prendem-se bem, os de cima com os debaixo, e rangem, esfregam se. E começo a suar, e a tremer, meu pensamento fica confuso e acelerado. Não sei mais o que é certo pensar, não sei mais se quero tudo que queria ontem. Certamente não posso fugir agora, posso ? Eu queria muito fugir. Quis muito fugir na noite passada, durante a madrugada gelada de começo de outono. Queria abandonar essa casca, essa vida, esses planos que essa outra eu fez enquanto tentava calar meu eu mais forte que sempre quis fugir, não fazer planos e desapegar- se do pouco restante. Não tenho certeza, não sei se dói. Mas sufoca outra vez. Dedos grandes e grossos me enforcam, ruas desconhecidas e vozes grave...

Uma carta. Que precisa esperar um pequeno ser humano crescer e ser alfabetizado pra poder ser lida.

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Querida Ariel. Não me lembro o dia exato em que soube que sua mãe havia chegado na cidade. Mas consigo me lembrar detalhadamente do dia em que começamos a tecer esse laço dourado que tem nos unido. Era dia 20 de agosto de 2008. Havia uma festa muito grande naquela cidade, e durante essa festa, uma feira de bijuterias e roupas ficava montada na praça central. Sua mãe tinha o cabelo curto, desfiado, cor de rosa. Usava uma camisa de mangas compridas listrada de preto e branco. Estávamos em um grupo enorme. Éramos todos amigos, nos divertíamos muito e nem fazíamos idéia de onde nossa vida podia nos levar. Naquele dia eu me lembro de ter sorrido bastante, me lembro de correr muito da sua mãe porque estava com nojo, ela queria me beijar, [risos] Mas era só brincadeira. Corri tanto que deitei no chão, daí ela veio, com uma outra amiga também e me beijou e me fez cócegas, pulou em mim.. Foi um momento muito inocente e espontâneo. Muita coisa aconteceu depois daquele dia. Aquele extenso g...

Texto antigo encontrado nos rascunhos.

Sinto que te procurei. Tentei sentir seu cheiro nas bordas dos copos em que me afoguei. Cacei teus olhos no caminho misterioso que o fio de fumaça dos meus cigarros faziam, rumo ao infinito escuro do céu noturno. Procurei um abrigo teu em meio as minhas crises... solitárias e desesperadas. E penso que, em sonhos, num lugar muito inconsciente de ti, tenhas assistido me enquanto pintava os olhos com sorrisos poucos satisfeitos com o meu, com expectativas que eu não soube alcançar. E que agora, descubro lentamente, que não eram nem de longe, o que de perto eu pensava ver. A princípio, interpretamos algum tipo de dança.. um ritual.. como animais que se olham.. se rodeiam.. se cheiram.. e silenciam. Usei muito do faro até reconhecer te como não ameaça. Pra só então, avaliar te os olhos e checar teus antecedentes..quase criminais. Já fui ingênua e doce um dia. Acreditei que, se eu tivesse amor, meu objeto de desejo, também teria. Amei tanto, Tão errado. Tão torto, tão dolorido. Que, ...

Atirei me ao mar.

Conto as teclas. Conto os números, as letras, os símbolos, conto quantas combinações são possíveis. Tem sido assim a minha busca por amontoados de palavras que expliquem ou expulsem de mim o que tenho vivido. Não que tenha sido ruim. Mas precisa ser ejetado... Meu corpo é um barco. Tem dias que ele acorda furado e entra muita água... o barco vira, seus tripulantes engolem muita água, os mapas se perdem, as lunetas, os tesouros, as sereias... Vez ou outra o barco amanhece forte. A água das ondas não alcança as bordas e... Também tem dias que o barco fica vazio... e dá pra ouvir a melancolia das ondas quebrando sozinhas.. levando-o para onde o olho não alcança... no coração do oceano. Existe um tripulante no barco que eu vivo tentando proteger da fúria do mar. Ele chegou a pouco tempo e não sabe lidar muito bem.. Não quero que ele vá embora, mas... com certa frequência seu olhar me questiona. Porquê tanta segurança? Assim ele se atira contra as ondas e sorri. Sorri. Um sorriso b...
Eu sempre sei a altura.  E mesmo assim eu sempre pulo.  De cabeça e olhos fechados.

Por fim...

Sopro a fumaça para cima procurando alguma magia nos meus gestos escuros. Peço desculpas pelas lágrimas que me escorrem sem querer. Peço desculpas sempre, por tudo que fiz e agradeço pelo pouco que recebi. Imagino como seria minha história se as mentiras das pessoas funcionassem comigo. Doeria menos ? E pensar que um dia procurei sentido na vida.. em viver.. em estar viva. Paro. Respiro. Dói. Os livros que eu não li, os que deixei pela metade, os que me preencheram, os que me fizeram chorar. As gavetas .. abarrotadas de lembranças de todas as pessoas que conheci. Minhas fotos antigas, meus diários de criança...Alianças. Pequenos laços, cartas, bilhetes. Essas coisas velhas que eu não sei como jogar fora, eu não sei como queimar e continuar vivendo como se aquilo nunca tivesse existido. É como não me conformar nunca com tudo que acontece. Algumas fotos eu rasguei, doeu demais. Rasgar não diminuiu nada. Só transformou em metáfora o que eu sentia : o peito rasgado.. os hemato...
É incrível, a cada noite, eu tenho mais certeza, de que nessa vida, nada me sossega. Nada me acalma o que quer que seja, que mora enjaulado dentro de mim, que as vezes grita, tenta se livrar da grade. Nunca consegue.

Meus olhos agora.

Eu não posso explicar , simples.  Não posso explicar essa sua morte que ocorre Em Meus Olhos Agora.

it's torturous..

E desde então eu tenho fugido. Eu sempre quis fugir... É difícil fugir, é difícil arrastar uma culpa mais pesada do que o teu corpo... Engasgo as palavras gastas e ásperas que eu já mal consigo escrever .. descrever... não sei mais. E então todas as noites eu fujo , fugi em todas as últimas .. Não posso me aninhar na cama e ajeitar o rosto no travesseiro ... sem fugir.. Não posso pensar que eu me sinto sozinha como nunca antes me senti.. Não posso pensar que as minhas fugas destruíram o que hoje era pra ser tão alto que você nem enxergaria o topo. Não posso pensar em algo que me queima por dentro, como se quisesse sair ... rasgar a pele do meu corpo de dentro pra fora... Não posso pensar em nada .. não consigo ... então eu fujo. Eu desvio como o bom fraco e perdedor que sou .. que me tornei .. com tanta solidão .. não sei.. Nem tenho como saber. Porque eu pergunto a quem está em volta e eles me olham como se ... eles riem na minha cara , porque eles sabem pra onde eu estou cami...