Me escreverei cartas de amor.

Entendi que preciso me libertar da necessidade de estar sempre ligada a alguém. Sempre em contato com alguém. Triste hábito que a ansiedade me trouxe desde muito cedo. A ideia de que só estaria segura com outra pessoa me cuidando, falando comigo, fazendo com que eu mantivesse contato com algo externo a mim, uma espécie de âncora para o caso de eu me perder dentro de mim. Que traz justamente esse efeito: âncora, peso. Ninguém deve ocupar esse lugar, porque ele não deve existir. Logo, ele jamais funciona.

Ao longo dos anos, muitas pessoas que eu amei me deixaram aos pedaços, em qualquer tipo de relação — principalmente de amizade. Eu queria estar sempre ao lado, para tudo, sendo ingênua, já que isso não é possível. Em nenhuma relação isso existe. Aliás, existe: a relação consigo mesmo. Esta precisa ser sempre nutrida e bem cuidada. Estarei comigo até o fim, minha única obrigação é comigo.

Eu cresci achando que a forma mais bonita de amar era amar alguém incondicionalmente, com todas as suas nuances, sem nunca considerar esse amor para o eu. O que é facilmente compreensível quando você lida com depressão e complexo de inferioridade. E eu nunca entendi por que as pessoas não me devolviam nunca todo o amor que eu dava para elas, já que, de fato, tudo que damos ao mundo retorna para nós. E a mim só retornava dor e decepção.

Acho que nem preciso citar o fator de atribuir aos outros expectativas só minhas, mas fica aí o tópico para você pensar também. E só assim é que eu finalmente inicio um processo que provavelmente vai durar o resto da vida: o processo de resistir ao meu impulso ansioso de sempre precisar falar, na hora, o que sinto; de sempre achar que vou morrer amanhã e vai ser tarde demais. Quem nos dera fosse.

O processo envolve ouvir minha intuição, que é sempre aquele sussurro quase inaudível, que, inclusive, na última desventura me pedia para ir dormir, para refletir melhor e processar todos os fatos. E eu não ouvi, infelizmente. Mandei a mensagem julgando que expor meu sentimento era o mais certo a fazer. E, para essa situação específica, realmente não foi o melhor.

Doeu, machucou, quebrou, e não era necessário — assim como nada mais é. E toda urgência, daqui para frente, será sempre acolhida com paz e tempo. Reflita mais. Espere mais. Se amanhã for tarde demais, tudo bem. É melhor do que ser magoado. É melhor do que viver colecionando decepções. É melhor do que esperar acolhimento e receber uma indiferença ensurdecedora, simplesmente porque não era a hora, porque eu não me dei ouvidos, porque a paranoia, o estresse e o desespero me cegaram.

Entretanto, sou grata por tudo que aconteceu. Agilizou processos que demorariam, não fosse pela imensa tristeza que se seguiu. Mostrou que a única pessoa em quem devemos confiar é a que está debaixo da nossa própria pele. Do outro, espere tudo e mais um pouco.

Seja seu abrigo, seja sua paz, seja seu porto. Talvez leve tempo — não é simples —, mas vai mudar tudo. Vai ressignificar tudo. Seja o grande amor da sua vida. Seja o que você precisa, seja o colo, seja o que ninguém quer ser — não por maldade, mas porque só você pode ser isso para si. E é errado jogar essa função nas outras pessoas. Ora, porque não devem, mas, acima de tudo, porque não querem você.

E isso não quer dizer que, porque seu objeto de amor não te quer, você não deva se amar. E isso é construído todos os dias. Levante-se e lute por você. Seja o amor da sua vida. Seja o protagonista da sua vida.

Não escrevi tudo isso como um tipo de autoajuda vindo de quem está perfeitamente equilibrado. Escrevi para mim. Repito todos os dias. E essa é a fórmula para me curar dos amores desperdiçados mundo afora.

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