Trinta e um

 As coisas que aprendi até aqui foram: mesmo se você fugir, mesmo se você voar por 10 horas e atravessar o oceano e começar uma vida nova, as dores antigas ainda vão doer. Você tenta deixar pra trás, todas os rostos das pessoas que te machucaram, mas ainda dói, porque não tem explicação. Era maldade por maldade. Não tem uma razão por trás. 

Não tem nada que explique homens de mais de 20 anos de idade quererem transar com uma adolescente de 14,15,16 anos... E por mais que eu tenha culpado a mim mesma por todos esses anos, com 31 eu sou capaz de entender que o crime não era meu, mas a dor é. Essa me pertence e aparentemente vai morrer comigo.

Mesmo que a minha vida nova seja mais leve, mesmo que eu tenha mais poder de escolha, mesmo que meu emprego não seja no shopping, eu ainda choro escandalosamente sozinha no meu quarto no dia que completo 31 anos. Porque continua doendo. Nem toda terapia do mundo apaga o que eu vivi. 

Tem um buraco gigante dentro de mim, porque a minha origem é feia. Eu vim de uma família quebrada que foi se quebrando mais e mais ao longo do tempo. Gerações antes da minha já estavam sofrendo. Todas as mulheres da minha família carregam essa marca. Minha bisavó bebeu soda caustica com a minha mãe ainda bebe no colo, mas em 1975 ninguém sabia que era depressão. Infelizmente a violência nos seguiu, correndo entre os anos, entre as gerações, entre as relações familiares estilhaçadas. 

Eu não sinto falta da minha família, porque sinto que nunca tive uma. Eu nunca me senti acolhida ou respeitada, meu gostos sempre foram ridicularizados e diminuídos. Isso me faz sentir um fantasma. Eu não tenho história. Tudo que eu conto sobre o meu passado é triste. A minha única sorte foi ter sido amada pela minha mãe, e essa foi a única pessoa que me deu uma chance no meio de todo o caos e sempre me incentivou a estudar e buscar o que quer que fosse que eu estivesse almejando. Mesmo que ela mesma não entendesse. Por ela eu fiquei nesse mundo, pra que ela também entendesse e resgatasse a criança dela que também não foi amada, que também não foi cuidada. E nós duas nos seguramos uma a outra no mar revolto. Revolto de ódio por mulheres, de machismo, de misoginia. Juntas, nós somos tudo que temos. E é por isso que hoje me sinto tão sozinha aqui. Minha mãe e a meia dúzia de amigos que tenho estão do outro lado do oceano. 

É muito duro viver tudo isso, especialmente quando a minha volta eu vejo histórias melhores, eu vejo pessoas com boas carreiras, carros, casas e eu não tenho nada além da minha dor e do meu ódio. 

Hoje é meu aniversário e eu não tenho o que comemorar. Porque tudo dói demais. 

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