Encontrei-a desacordada no meio do enorme jardim , peguei a no colo localizando os ferimentos e tentei ser rápida com a escada dos fundos até o banheiro.
Encostei com cautela suas costelas aparentes através da roupa na parede gelada enquanto enchia a banheira .
Depois que abri o registro, me permiti descansar num suspiro profundo, meio agachada no chão , fiquei olhando para ela, descalça , as fitas de cetim que enfeitavam lhe os cabelos estavam todas meio rasgadas , o vestido florido tinha um pouco de sangue, um pouco de lágrimas, e seu rosto tão sensível estava muito vermelho, pobrezinha, deve ter ficado dias atirada no jardim, sendo picada por insetos, e corroída pelo sol .
Perdida nas minhas conclusões , esqueci me da banheira , e quando dei por conta , estava transbordando.
Constrangi me ao despi la com cautela , para não fazer doer mais os pequenos arranhões.
Era tão branca, que brilhava e meus olhos arderam todo o tempo.
Desembaracei e prendi seus cabelos , revelando seu rosto fundo e distante , peguei algodão e molhei na água morna , e fui limpando dela a poeira, o pólen , a maquiagem , as tristezas , as lágrimas invisíveis e as noites de solidão irrelutável.
Depois bem devagar coloquei a na banheira e soltei a por um momento procurando toalhas , quando me voltei a ela, estava imersa na água, não parecia nem um pouco viva, mas continuava linda , linda a ponto de arder -me os olhos, e assustei me quando as bolhinhas de respiração não subiram até a superfície , e levantei- na as pressas .
Sentei me no chão com ela nos braços envolta num monte de toalhas, e fui secando seu rosto, os ossos do tórax, o pescoço, atrás das orelhas , os braços , as mãos, e voltei para o rosto, procuro louca e não encontro definição pra coisa pesada e leve e linda ao mesmo tempo que aquele rosto causava.
Haviam marcas cruéis em seus tornozelos infantis, marcas de uma solidão muito afiada e um desespero fácil de encontrar.
Apoiei sua cabeça nas toalhas e saí a procura de curativos .
Limpei sua dor, cuidei das feridas , e espero que ela me perdoe por ter chorado sobre elas.
Cuidei dela, reparei-a como repara se uma boneca deixada no tempo.
Levei a para o quarto, vesti nela roupas bonitas, de cores que gosto, cinza , branco, azul.
Pintei seu rosto , dei -lhe cor aos lábios frios e um abraço apertado.
Depois , coloquei a de volta na prateleira , junto com as outras bonecas.

Comentários
perfeito.. faz um livro sobre isso...
acolhedora de bonecas
nuss mt lindo .-.
nem sei oq falar >.<
seus post ehh mt vc joe.
te amo ♥
Assinou de maneira sublime no final.
Não mudaria nada.
Nada mesmo.