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... estabelecendo contato ...

O céu amanheceu escondendo-se por baixo de uma camada de muitas nuvens , todas juntas. Haviam até estrelas a uns três dias atrás durante a noite, mas desde então, só choveu. Temo que os cigarros estejam acabando, o que me forçaria a voltar e pisar em terra firme. A não ser que eu pare de fumar. É. Me acostumei com o balanço do mar, e quase não tenho mais enjôos . Devagar , minhas bebidas afastaram do pensamento as coisas que deixei por lá. Desliguei os motores , pra quê a pressa? No entanto, se existe alguém ai a minha espera , ouça : eu nunca vou voltar. Câmbio , desligo.
Fingir para quem você mais ama que só está com sono quando na verdade está muito drogada. Deitar na cama, mesmo com pouca lucidez , fechar os olhos e tentar tocar aquele sorriso no pensamento. Chorar até pegar no sono. Amanhecer com o rosto inchado , olheiras . Lembrar dos seus sorrisos falsos na noite passada e chorar encolhida num canto do quarto, se sentindo imbecil , porque todo aquele teatro , não faz o mínimo sentido. Não muito bem [...]
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Encontrei-a desacordada no meio do enorme jardim , peguei a no colo localizando os ferimentos e tentei ser rápida com a escada dos fundos até o banheiro. Encostei com cautela suas costelas aparentes através da roupa na parede gelada enquanto enchia a banheira . Depois que abri o registro, me permiti descansar num suspiro profundo, meio agachada no chão , fiquei olhando para ela, descalça , as fitas de cetim que enfeitavam lhe os cabelos estavam todas meio rasgadas , o vestido florido tinha um pouco de sangue, um pouco de lágrimas, e seu rosto tão sensível estava muito vermelho, pobrezinha, deve ter ficado dias atirada no jardim, sendo picada por insetos, e corroída pelo sol . Perdida nas minhas conclusões , esqueci me da banheira , e quando dei por conta , estava transbordando. Constrangi me ao despi la com cautela , para não fazer doer mais os pequenos arranhões. Era tão branca, que brilhava e meus olhos arderam todo o tempo.  Desembaracei e prendi seus cabelos , revel...
Amanhecia e anoitecia e eu ainda não havia pensado em nada , nada que não começasse ou terminasse em Kons-tan-ti-ne . Permaneci talvez por dias sentado na beira da cama olhando as caixas de papelão que não foram usadas porque ela tinha poucas coisas pra levar. Enquanto as estações mudavam e o vento , a chuva e a neve chegavam pelas janelas abertas e presenciavam o desespero que me escorria pelas têmporas incrédulas. Um dia eu tentei me deitar , e o cheiro dela infestava os lençóis , as cortinas , as fronhas nos travesseiros , os cobertores e até mesmo os que estavam nos armários que ela provavelmente nem tinha chegado a usar , mesmo estes , estavam impregnados com o seu cheiro . Perturbado eu tentava me levantar mas então via a minha pequena numa imagem quase transparente , como um fantasma , atravessando as paredes , do jeito que ela sempre quis , mudar de um cômodo pra outro sem usar as portas. Porque Konstantine não gostava de portas ou passagens , minha pequena gostava de inve...

Essência estranha - Parte III

- Sim , bem branca. Parece até neve. Exato. Ela é incrível . Não. Na verdade ela é distante , sim , parece que nada pode alcançá-la , não sei se sofre , não sei se gosta. Por isso te procurei , preciso saber. - Mas porque quer tanto saber ? Não disse que nunca a viu antes? - Você não vai entender , precisa vê-la. Encontre-a , vasculhe- essa cidade de todas as formas , sonde-a , descubra quem ela é , porque eu não posso mais dormir sem saber disso. É muito sério. - Tudo bem , é o meu trabalho . Vou encontrá-la para você , mas isso pode nos custar caro. Talvez ela não queira ser encontrada ou incomodada. - Eu pago qualquer preço. Em qualquer sentido. - Certo. Te ligo qualquer hora dessas. - Obrigada. Naquela tarde , nevou. Tomei vários cafés , fiquei observando como as pessoas se vestem , como gesticulam falando ao telefone. Me lembrei de umas coisas que havia lido , em que as pessoas , muito apaixonadas , viam o rosto da pessoa amada nos desconhecidos nas ruas. Por um ins...

Essência estranha - Parte II

Baixei os óculos escuros e , meu Deus , como me doíam os olhos ter certeza de que era mesmo Agatha passando por aquela rua por onde eu passo diariamente. Agora aquela rua seria para sempre a Avenida Agatha,pelo resto dos meus dias eu me lembraria daquele caminhar desinteressado , os sapatos gastos e aqueles olhos , culpados pela minha insônia das duas semanas seguintes. Olhar para Agatha era como ser atropelado.É algo que você nunca espera , e de repente atravessa a rua falando ao telefone e , BUM , um caminhão enorme quebra quase todas as combinações de ossos do seu corpo. Era exatamente isso que Agatha me fazia sentir. O gosto do meu sangue saía desses ossos trincados e vinha me atormentar nos lábios , o mundo em volta continuava igual , mas não você se olhasse pra ela , era como possuir dali para frente a marca da besta. Ou qualquer coisa que soe um pouco menos maldita quanto isso. Aquele dia para mim foi como um renascer de algo que a muito eu não fazia , desde criança talvez...

Essência estranha ,

De costas , parecia - se muito comigo. Cabelos desalinhados , pernas agéis , os olhos ; dois poços de águas escuras e infinitas . Enganava um pouco , mas a altura denunciava. Sim , tenho certeza , era mesmo ela . Com seu andar faceiro , provocando espanto , espalhando o cheiro da nicotina entre os cafés da cidade , entre as pessoas indo trabalhar. Sei que era ela , e espero vê-la outra vez , sim. Era Agatha atravessando a rua principal e mostrando o dedo pro cara da moto que a chamou de princesa. Era ela , inesquecível , como é que alguém poderia não se lembrar daqueles cabelos misturados ao fio de fumaça e os fones no ouvido ? Notei quando seus olhos percorreram as pernas das colegiais de saias curtas do outro lado da avenida. Era ela ! Sei que era ! Dando bom dia ao mundo com seu ar de Natasha. Ela não usa salto 15 ou saia de borracha . Mas já teve cabelo verde e o que me diz desse pentagrama tatuado no pescoço ? Isso mesmo , Agatha estava de volta a cidade , e eu es...