domingo, 5 de dezembro de 2010

Encontrei-a desacordada no meio do enorme jardim , peguei a no colo localizando os ferimentos e tentei ser rápida com a escada dos fundos até o banheiro.
Encostei com cautela suas costelas aparentes através da roupa na parede gelada enquanto enchia a banheira .
Depois que abri o registro, me permiti descansar num suspiro profundo, meio agachada no chão , fiquei olhando para ela, descalça , as fitas de cetim que enfeitavam lhe os cabelos estavam todas meio rasgadas , o vestido florido tinha um pouco de sangue, um pouco de lágrimas, e seu rosto tão sensível estava muito vermelho, pobrezinha, deve ter ficado dias atirada no jardim, sendo picada por insetos, e corroída pelo sol .
Perdida nas minhas conclusões , esqueci me da banheira , e quando dei por conta , estava transbordando.
Constrangi me ao despi la com cautela , para não fazer doer mais os pequenos arranhões.
Era tão branca, que brilhava e meus olhos arderam todo o tempo. 
Desembaracei e prendi seus cabelos , revelando seu rosto fundo e distante , peguei algodão e molhei na água morna , e fui limpando dela a poeira, o pólen , a maquiagem , as tristezas , as lágrimas invisíveis e as noites de solidão irrelutável.
Depois bem devagar coloquei a na banheira e soltei a por um momento procurando toalhas , quando me voltei a ela, estava imersa na água, não parecia nem um pouco viva, mas continuava linda , linda a ponto de arder -me os olhos, e assustei me quando as bolhinhas de respiração não subiram até a superfície , e levantei- na as pressas .
Sentei me no chão com ela nos braços envolta num monte de toalhas, e fui secando seu rosto, os ossos do tórax, o pescoço, atrás das orelhas , os braços , as mãos, e voltei para o rosto, procuro louca e não encontro definição pra coisa pesada e leve e linda ao mesmo tempo que aquele rosto causava.
Haviam marcas cruéis em seus tornozelos infantis, marcas de uma solidão muito afiada e um desespero fácil de encontrar.
Apoiei sua cabeça nas toalhas e saí a procura de curativos .
Limpei sua dor, cuidei das feridas , e espero que ela me perdoe por ter chorado sobre elas.
Cuidei dela, reparei-a como repara se uma boneca deixada no tempo. 
Levei a para o quarto, vesti nela roupas bonitas, de cores que gosto, cinza , branco, azul.
Pintei seu rosto , dei -lhe cor aos lábios frios e um abraço apertado. 








Depois , coloquei a de volta na prateleira , junto com as outras bonecas.


3 comentários:

darkblue disse...

é tão bom saber que existe você pra reparar, costurar, ajeitar e cuidar da boneca de porcelana que existe dentro de mim, parece que saber que existe alguém para colocar as coisas no lugar já faz com que as coisas voltem para seu devido lugar.

Gustavo Pezory disse...

amei, me fez chorar... denovo... nusss...
perfeito.. faz um livro sobre isso...
acolhedora de bonecas
nuss mt lindo .-.
nem sei oq falar >.<
seus post ehh mt vc joe.
te amo ♥

Brunno Lopez disse...

Agora sim eu vi potencial.
Assinou de maneira sublime no final.

Não mudaria nada.
Nada mesmo.