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Quantos anos de blog? E eu continuo querendo fugir. Quero me mudar de MIM !!!

Desde que parei de escrever, vivo transbordando. Logo eu, que sempre preferi ficar sozinha com os meus pensamentos, observando e descobrindo detalhes que as outras pessoas ignoram enquanto conversam sobre aquela viagem, aquela brisa, ou aquela pinga. Porque as minhas histórias desse tipo são poucas. Dá pra contar nos dedos. Cansou fácil. Conforme você cresce, fica mais difícil lidar com as consequências do que o corpo faz quando fica embriagado. Pelo menos com o meu, foi assim. Pra onde foram os humanos? Onde estão os humanos parecidos comigo, para eu me juntar? Ficou tão escasso o contato. Mesmo desempregada, mesmo os poucos amigos, também desempregados, fica cada dia mais complicado o simples evento de juntar uns amigos e ficar tagarelando. Mesmo com esse mundo enorme me envolvendo, ainda me sinto sozinha. Ando num estado que, olha… seja qual for o assunto, não demora, eu começo a chorar. A crise financeira, que hoje em dia não atinge mais apenas os bancários ou gente de muita grana,...

All I wanna say is that They don't really care about us .

Eles não se importam. Não importa o que você veste, nem os sapatos que usa. Não importa se você vende drogas ou não, se usa drogas ou não, se já fez um assalto ou não. Se tem mãe ou não. Nada importa, exceto o fato de estar aqui. Pior ainda, se você morar aqui. Pode estar apenas caminhando com o cachorro na coleira, sentindo o frescor da noite. Eles não vão se importar. Só importa o fato de você não ter outro lugar para estar quando eles chegam. Aqui, eles nos olham como se fôssemos ratos. Enquanto eles trabalham para a companhia de saneamento — água e esgoto. E o seu dever é manter o esgoto limpo. Sem ratos. Portanto, somos o estorvo. Se não existissem ratos, eles poderiam comer suas rosquinhas e fazer cara de mau por aí, nos postos de gasolina, caminhando, fazendo suas botas de couro rangirem, ordenando que o som dos carros seja abaixado. Tudo na área limpa da cidade. Na nata. Na superfície. Somos a Deep Web da vida real. Se nós, os ratos, não existíssemos, eles não precisariam vir a...
Tudo vai bem. Bem pelo avesso. Olho pra rua depois de vários dias sem sair de casa. Penso em todas as coisas, os problemas, as brigas, possíveis soluções… Passa das sete, horário de verão, acaba de escurecer. Caminho com as mãos nos bolsos, olhando as vitrines e fachadas de clínicas, imaginando os donos dos nomes esquisitos de médicos. Um cara aponta na esquina. Tenho quase certeza que vai me parar. Dinheiro. Claro. “Me dê qualquer quantia, pra comer alguma coisa.” As frases são parecidas. As possibilidades: inúmeras. O cara podia realmente comer. Ou comprar um baseado, uma pedra, ou uma pinga de bar, ou juntar grana pra voltar pra Bahia. Sim, um cara já me disse isso uma vez. Às vezes, eles me convencem da veracidade das histórias. Porque o dinheiro mesmo, conseguem sem esforços. Não sei dizer não. Isso acontece muito. Continuo andando, chutando pedras, desviando das obras das calçadas, das pessoas folgadas que acham que você é quem tem que desviar delas… De repente, reparo nas lojas ...

1852

Essas músicas que vocês cantam, essas músicas que vocês dançam e dizem sentir todo um universo nos ouvidos. Eu não tenho isso. Ouço, mas não sinto. Olho meus dedos através do sol, depois olho em volta, e eu não faço parte dos carros passando, nem das pessoas conversando, nem da fofoca das vizinhas, nem dos causos nos bares, nem dos sorrisos entre as bebidas, nem das transas promíscuas. De nada. No meu mundo, somente as letras dançam, embaralhadas na minha cabeça e balançando na minha visão turva enquanto eu tento transcrever o que… o que pede pra eu rasgar minha pele e fugir daqui, porque aqui não é meu lugar. Eu vivo todos esses dias tentando mascarar que aqui dentro está vazio. Eu limpo a casa, lavo as roupas, vou pro trabalho, luto pra falar ao telefone, pra ter como sobreviver, preparo o almoço, o jantar, a ração pro cachorro. E, quando eu me distraio com minha própria imagem no espelho, eu não sou nada. Eu procuro em livros, eu procuro nas histórias das vidas de outras pessoas, no...
Passos pesados ecoam sobre a poeira. Os pequenos bichos correm para se esconder. É como entrar numa casa abandonada, tomada pela natureza, pelo lodo, pelo escuro.  Ler tudo que ficou intacto aqui, sobras de todos aqueles anos, me faz sentir assim. É pesado. Escuro, acelerado. Sempre parecendo que eu não sobreviveria. Lembra quantas vezes eu falei em fugir? Nunca o fiz... Para você, que pode estar aqui pela primeira vez, não importa, mas se você é um peregrino dos bons pelas histórias de vidas alheias perdidas nessa enorme rede.. talvez importe. Eu fiquei, estou na mesma cidade, no mesmo apartamento, usando as mesmas roupas, com o mesmo nome. Lutei contra o que me habita, talvez seja vago dizer que o domino, mas posso afirmar que não me domina mais.  Cada noite, cada caminhada pelas noites escuras nesse bairro que nem deve existir no mapa, cada cigarro que ardeu a garganta e cada gole traiçoeiro, me recordo de tudo. Bem aqui. Neste mesmo lugar, neste pequeno cor...
É muito difícil continuar escrevendo nos dias de hoje, tanto pela falta de fé das pessoas nos escritores quando pelo meu medo de estar submersa pela escuridão desse pântano de sangue outra vez. Não consigo mais escrever. Não consigo escrever sem me arrancar pedaços, sem ficar espalhada pelos cantos, sem estar em frangalhos, migalhas. Me desmontar... nem que seja pra remontar tudo depois. Nunca imaginei que seria assim. A vida eu até tinha uma noção de que, de um jeito ou de outro, seguiria. Aos trancos; mas isso? Assim? Sem poder dizer nada? Sem poder cuspir quando sinto gosto ruim, sem poder vomitar quando o conteúdo ingerido não se adapta ao meu organismo? Que estranho. Não me sinto. Escrevo, preencho a linha inteira, e deixo só metade. Ou nem isso. Como na linha acima, tinha mais história ali, apertei várias vezes a tecla de apagar. Só "não me sinto" deve bastar. Quando era o começo, quando eu tinha muito menos experiência pra me sustentar, sobreviver, o desespero me ...
O mundo cai. Sempre que eu fecho meus olhos. Mas é segredo... Ninguém ouve, ninguém caminha entre os escombros comigo. É solitário demais aqui. Dentro da minha cabeça...