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Essas músicas que vocês cantam, essas músicas que vocês dançam e dizem sentir todo um universo nos ouvidos. Eu não tenho isso. Ouço, mas não sinto. Olho meus dedos através do sol, depois olho em volta, e eu não faço parte dos carros passando, nem das pessoas conversando, nem da fofoca das vizinhas, nem dos causos nos bares, nem dos sorrisos entre as bebidas, nem das transas promíscuas. De nada. No meu mundo, somente as letras dançam, embaralhadas na minha cabeça e balançando na minha visão turva enquanto eu tento transcrever o que… o que pede pra eu rasgar minha pele e fugir daqui, porque aqui não é meu lugar. Eu vivo todos esses dias tentando mascarar que aqui dentro está vazio. Eu limpo a casa, lavo as roupas, vou pro trabalho, luto pra falar ao telefone, pra ter como sobreviver, preparo o almoço, o jantar, a ração pro cachorro. E, quando eu me distraio com minha própria imagem no espelho, eu não sou nada. Eu procuro em livros, eu procuro nas histórias das vidas de outras pessoas, no...
Passos pesados ecoam sobre a poeira. Os pequenos bichos correm para se esconder. É como entrar numa casa abandonada, tomada pela natureza, pelo lodo, pelo escuro.  Ler tudo que ficou intacto aqui, sobras de todos aqueles anos, me faz sentir assim. É pesado. Escuro, acelerado. Sempre parecendo que eu não sobreviveria. Lembra quantas vezes eu falei em fugir? Nunca o fiz... Para você, que pode estar aqui pela primeira vez, não importa, mas se você é um peregrino dos bons pelas histórias de vidas alheias perdidas nessa enorme rede.. talvez importe. Eu fiquei, estou na mesma cidade, no mesmo apartamento, usando as mesmas roupas, com o mesmo nome. Lutei contra o que me habita, talvez seja vago dizer que o domino, mas posso afirmar que não me domina mais.  Cada noite, cada caminhada pelas noites escuras nesse bairro que nem deve existir no mapa, cada cigarro que ardeu a garganta e cada gole traiçoeiro, me recordo de tudo. Bem aqui. Neste mesmo lugar, neste pequeno cor...
É muito difícil continuar escrevendo nos dias de hoje, tanto pela falta de fé das pessoas nos escritores quando pelo meu medo de estar submersa pela escuridão desse pântano de sangue outra vez. Não consigo mais escrever. Não consigo escrever sem me arrancar pedaços, sem ficar espalhada pelos cantos, sem estar em frangalhos, migalhas. Me desmontar... nem que seja pra remontar tudo depois. Nunca imaginei que seria assim. A vida eu até tinha uma noção de que, de um jeito ou de outro, seguiria. Aos trancos; mas isso? Assim? Sem poder dizer nada? Sem poder cuspir quando sinto gosto ruim, sem poder vomitar quando o conteúdo ingerido não se adapta ao meu organismo? Que estranho. Não me sinto. Escrevo, preencho a linha inteira, e deixo só metade. Ou nem isso. Como na linha acima, tinha mais história ali, apertei várias vezes a tecla de apagar. Só "não me sinto" deve bastar. Quando era o começo, quando eu tinha muito menos experiência pra me sustentar, sobreviver, o desespero me ...
O mundo cai. Sempre que eu fecho meus olhos. Mas é segredo... Ninguém ouve, ninguém caminha entre os escombros comigo. É solitário demais aqui. Dentro da minha cabeça...
Novamente aqui, perante ao dilema de não mais saber lidar tão bem com as teclas e letras e acentos e pontos. De novo o gosto amargo de ferrugem, de sangue, na boca. De novo o gosto azedo do meu sulco gástrico de toda a vida, escalando as paredes da minha garganta com uma destreza tremenda. Entretanto meus dentes prendem-se bem, os de cima com os debaixo, e rangem, esfregam se. E começo a suar, e a tremer, meu pensamento fica confuso e acelerado. Não sei mais o que é certo pensar, não sei mais se quero tudo que queria ontem. Certamente não posso fugir agora, posso ? Eu queria muito fugir. Quis muito fugir na noite passada, durante a madrugada gelada de começo de outono. Queria abandonar essa casca, essa vida, esses planos que essa outra eu fez enquanto tentava calar meu eu mais forte que sempre quis fugir, não fazer planos e desapegar- se do pouco restante. Não tenho certeza, não sei se dói. Mas sufoca outra vez. Dedos grandes e grossos me enforcam, ruas desconhecidas e vozes grave...

Uma carta. Que precisa esperar um pequeno ser humano crescer e ser alfabetizado pra poder ser lida.

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Querida Ariel. Não me lembro o dia exato em que soube que sua mãe havia chegado na cidade. Mas consigo me lembrar detalhadamente do dia em que começamos a tecer esse laço dourado que tem nos unido. Era dia 20 de agosto de 2008. Havia uma festa muito grande naquela cidade, e durante essa festa, uma feira de bijuterias e roupas ficava montada na praça central. Sua mãe tinha o cabelo curto, desfiado, cor de rosa. Usava uma camisa de mangas compridas listrada de preto e branco. Estávamos em um grupo enorme. Éramos todos amigos, nos divertíamos muito e nem fazíamos idéia de onde nossa vida podia nos levar. Naquele dia eu me lembro de ter sorrido bastante, me lembro de correr muito da sua mãe porque estava com nojo, ela queria me beijar, [risos] Mas era só brincadeira. Corri tanto que deitei no chão, daí ela veio, com uma outra amiga também e me beijou e me fez cócegas, pulou em mim.. Foi um momento muito inocente e espontâneo. Muita coisa aconteceu depois daquele dia. Aquele extenso g...

Texto antigo encontrado nos rascunhos.

Sinto que te procurei. Tentei sentir seu cheiro nas bordas dos copos em que me afoguei. Cacei teus olhos no caminho misterioso que o fio de fumaça dos meus cigarros faziam, rumo ao infinito escuro do céu noturno. Procurei um abrigo teu em meio as minhas crises... solitárias e desesperadas. E penso que, em sonhos, num lugar muito inconsciente de ti, tenhas assistido me enquanto pintava os olhos com sorrisos poucos satisfeitos com o meu, com expectativas que eu não soube alcançar. E que agora, descubro lentamente, que não eram nem de longe, o que de perto eu pensava ver. A princípio, interpretamos algum tipo de dança.. um ritual.. como animais que se olham.. se rodeiam.. se cheiram.. e silenciam. Usei muito do faro até reconhecer te como não ameaça. Pra só então, avaliar te os olhos e checar teus antecedentes..quase criminais. Já fui ingênua e doce um dia. Acreditei que, se eu tivesse amor, meu objeto de desejo, também teria. Amei tanto, Tão errado. Tão torto, tão dolorido. Que, ...