quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Tornozelos

Dormindo tarde, chegando atrasado no trabalho, derramando leite quente no fogão e passeando com o cachorro de roupa amassada e cara de ontem.
Eu poderia me lembrar do cabelo, da íris, do abraço, como fazem os românticos, mas sou meio torto. Tenho na mente os tornozelos.
E não queria me lembrar deles. É a parte mais dolorida.
O ponto de vista rente ao chão no colchão bagunçado, e seus tornozelos pra lá e pra cá. Umas fitinhas coloridas em um, e pulseiras de sementes no outro. Vezenquando parava pra beber água junto ao filtro e apoiava o pé esquerdo no peito do direito.
Colocava o sapato com brutalidade, amarrava os cadarços com força, maltratava os tornozelos. Nem se importava com eles. Tão sós.
 Tão longe do coração,
do café,
da madrugada,
do leite no fogão,
do cachorro,
da roupa...

Um comentário:

Brunno Lopez disse...

Mais uma perspectiva única de sua pessoa, justamente igual a sua escrita.